Sérgio Jacomino said....Por um fio....
ESSE TAMBÉM!!!
Sérgio Jacomino said....
Por um fio...
O ICC era uma microcosmo, um continente encravado num ponto qualquer do Ipiranga, entre a barroca - soberana, única, indisputada referência! - um seminário carlista misterioso, enovelado em ondas de roseiras, rosários e rostos de figuras tristes, limitado pelos altos muros que nos separavam de uma terra incógnita. Como os marujos grafaram em suas cartas marítimas: "hic sunt leonis!"
Pois havia ali, perdido no quadrante localizado entre lavanderias, refeitório e cozinha, um espaço místico, habitado por duendes, coelhos, fadas, pássaros e uma infinidade de pequenas e delicadas plantas que vicejavam à sombra de um arvoredo.
Abel reinava em seus domínios: cidadela fortificada de madeira, guarnecida por galinhas, porcos e cachorros, fazendo costada com o prédio dos dormitórios.
Lembro-me que certa noite, tomado pelo medo, atormentado pela solidão e ferido por um sentimento que jamais me abandonaria - a perda do calor materno - caí em um transe profundo, como se estivesse me esvaindo, perdendo completamente o sentido de mim mesmo.
Havia ao lado da cama um armarinho de madeira, onde minha roupa e alguns poucos pertences - a pasta de dentes, a escova, o par de sapatos Verlon - ainda confirmavam minha existência. As coisas clamam por seu dono! E só isto me bastaria para me recobrar e aí resistir, com minhas pequenas propriedades. Tão cedo compreendia que a propriedade tem, ela mesma, certas propriedades...
Tinha nos bolsos da calça um carretel de linha corrente e rapidamente, antes que me esvaísse novamente em transes e ondas de medo, engastei a pasta de dentes no fio da linha e fiz descer pela janela esse estranho pedido de socorro. E ali fiquei, imóvel, ligado ao exterior por um tênue fio de linha corrente, experimentando que o mundo pesava exatamente o peso de um tubo de pasta de dentes.
Lá fora os cães ladravam na noite perturbadora. Eram as feras de Abel. À porta assomava um vulto escuro, cuja silhueta se conformava pela luz tíbia que preguiçosamente lambia os ladrilhos. Quem seria? Quem me visitava na noite?
E assim adormeci, com a certeza de que enfim despertava de um pesadelo!
SJ
6:48 PM
Sérgio Jacomino said....
Por um fio...
O ICC era uma microcosmo, um continente encravado num ponto qualquer do Ipiranga, entre a barroca - soberana, única, indisputada referência! - um seminário carlista misterioso, enovelado em ondas de roseiras, rosários e rostos de figuras tristes, limitado pelos altos muros que nos separavam de uma terra incógnita. Como os marujos grafaram em suas cartas marítimas: "hic sunt leonis!"
Pois havia ali, perdido no quadrante localizado entre lavanderias, refeitório e cozinha, um espaço místico, habitado por duendes, coelhos, fadas, pássaros e uma infinidade de pequenas e delicadas plantas que vicejavam à sombra de um arvoredo.
Abel reinava em seus domínios: cidadela fortificada de madeira, guarnecida por galinhas, porcos e cachorros, fazendo costada com o prédio dos dormitórios.
Lembro-me que certa noite, tomado pelo medo, atormentado pela solidão e ferido por um sentimento que jamais me abandonaria - a perda do calor materno - caí em um transe profundo, como se estivesse me esvaindo, perdendo completamente o sentido de mim mesmo.
Havia ao lado da cama um armarinho de madeira, onde minha roupa e alguns poucos pertences - a pasta de dentes, a escova, o par de sapatos Verlon - ainda confirmavam minha existência. As coisas clamam por seu dono! E só isto me bastaria para me recobrar e aí resistir, com minhas pequenas propriedades. Tão cedo compreendia que a propriedade tem, ela mesma, certas propriedades...
Tinha nos bolsos da calça um carretel de linha corrente e rapidamente, antes que me esvaísse novamente em transes e ondas de medo, engastei a pasta de dentes no fio da linha e fiz descer pela janela esse estranho pedido de socorro. E ali fiquei, imóvel, ligado ao exterior por um tênue fio de linha corrente, experimentando que o mundo pesava exatamente o peso de um tubo de pasta de dentes.
Lá fora os cães ladravam na noite perturbadora. Eram as feras de Abel. À porta assomava um vulto escuro, cuja silhueta se conformava pela luz tíbia que preguiçosamente lambia os ladrilhos. Quem seria? Quem me visitava na noite?
E assim adormeci, com a certeza de que enfim despertava de um pesadelo!
SJ
6:48 PM

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